NOSSA HISTÓRIA

TRAJETÓRIA E PARCEIRIA

Fundação ataulpho de Paiva. Sede na rua Almirante Barroso no Rio de Janeiro (1900)

A trajetória da Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) começou como Liga Brasileira contra a Tuberculose em um cenário de uma cidade em transição. O Rio de Janeiro, no final do século XIX, então capital da Republica, apresentava um crescimento rápido e desordenado, onde se destacavam os 3 fatores considerados, pela própria Liga, como geradores e disseminadores da tuberculose: 1- a casa insalubre, as quais eram habitações coletivas, com excesso de moradores e sem condições higiênicas mínimas, 2- a alimentação insuficiente em qualidade e quantidade, devido ao custo elevado dos alimentos e a manutenção inadequada dos mantimentos,  e 3- o trabalho insalubre, com excesso de horas de trabalho, ambientes inadequados e ferramentas improprias. Este foi um período de assustadora ascensão da tuberculose!

Preocupados com o avanço do problema, profissionais liberais, políticos e membros da Igreja se reuniram na Pensão Beethoven, no bairro da Glória, na Zona Sul do Rio, a fim de constituir uma Liga contra a Tuberculose nos moldes das europeias. Assim nascia, em 4 de agosto de 1900, a Liga Brasileira Contra a Tuberculose, com a missão de combater a doença e desempenhar um trabalho assistencial que na época era inexistente. O objetivo era acompanhar pacientes que padeciam da doença e agir preventivamente. A Instituição foi responsável pelos primeiros dispensários no Rio de Janeiro: o Azevedo Lima, fundado em 1902, e o Visconde de Moraes, em 1911. Também criou o serviço de assistência domiciliar, em 1913, com a finalidade de dar atendimento médico-social aos portadores de tuberculose que não podiam se locomover até a unidade de tratamento, nesta época o estado ainda não era responsável pelo combate à tuberculose. A Liga passou a confeccionar e distribuir gratuitamente a Revista da Liga e o Almanaque da Liga, publicações pioneiras, já que o acesso à informação era bastante restrito.

Em 1924, a Liga que era a única instituição a atuar contra a Tuberculose no Rio de Janeiro, se transforma em fundação, sem fins lucrativos e de caráter filantrópico. Nessa mesma década, o Governo federal cria efetivamente uma política pública de controle da Tuberculose.

Entre os projetos sociais desenvolvidos pela Liga, destaca-se o Preventório Rainha Dona Amélia, na Ilha de Paquetá. Inaugurado em 24 de maio de 1927, com o objetivo de isolar os filhos de portadores de tuberculose, crianças que não estavam doentes, mas viviam em más condições de higiene e com desnutrição. Este deixou de ser uma unidade de isolamento com a introdução dos antibióticos na terapêutica durante a década de 1950, mas mantem até os dias de hoje a essência de seu objetivo: dar assistência a crianças em situação de vulnerabilidade e risco social.

Em 1927, a Fundação entrou em uma nova fase com a chegada do Professor Arlindo de Assis, pioneiro e incentivador no país do uso do Bacilo de Calmette Guerin (BCG), vacina contra a tuberculose. A estirpe foi trazida ao Brasil pelo pesquisador uruguaio Dr. Julio Elvio Moreau, a partir de uma doação do Instituto Pasteur de Lille (França), onde foi desenvolvida por Calmette e Guerin. A Fundação iniciou a produção da vacina BCG em apresentação oral, em dezembro de 1930 na sua planta de São Cristovão, no Rio de Janeiro.

O BCG Moreau, batizado por Assis em homenagem ao colega uruguaio, que trouxe a estirpe para o Brasil, é caracterizada por muito poucos efeitos adversos, sendo o único BCG usado para bebês nascidos de mães HIV + sem complicações relatadas. Os maiores estudos clínicos com BCG foram realizados no Brasil e mostraram efeitos adversos muito baixos. Uma peculiaridade da história da vacinação com BCG no Brasil é que até o final da década de 1960 a imunização era por via oral (mucosa) usando uma preparação líquida.
A Liga Brasileira contra a Tuberculose em 1936, já com o estatuto de Fundação, incorporou ao seu nome o de Ataulpho de Paiva, seu presidente perpétuo, e transformou-se numa instituição de pesquisa e produção de caráter privado.

A metodologia tradicional de manutenção da estirpe ou cepa BCG era a passagem entre culturas e o responsável por esse método, Prof. Arlindo de Assis, utilizou meios de cultura diferentes daqueles recomendados pelo Instituto Pasteur. Isto aconteceu principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, período durante o qual o pesquisador não recebia os insumos necessários para fazer os meios de cultura recomendados. Devido a essa adaptação, a vacina original foi geneticamente  modificada. Para nossa sorte, sabemos hoje que esta modificação propiciou o desaparecimento de um gene responsável por efeitos adversos e criou uma cepa única, que  hoje chamamos de BCG Moreau Rio de Janeiro. Esta metodologia de manutencão da estirpe por passagens foi utilizada na FAP até 1968, quando foi substituida gradualmente pelo uso de lotes semente (liofilizados), isto evita a modificação genética da estirpe.

Em 1966 morre o Prof. Arlindo de Assis e cresce a pressão pela mudança para vacina injetável. Na época as novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontavam para a substituição da utilização de passagens de cultura para manutenção das cepas por utilização de lotes semente liofilizados, os quais são mais estáveis, geneticamente seguros e garantem melhor qualidade ao produto final. Em 1968 em convenio com a OMS foram preparados para a FAP, no Statens Serum Institut (SSI) da Dinamarca, lotes semente primários e secundários da estirpe BCG Moreau Rio de Janeiro. Em 1972 a FAP iniciou a produção da vacina intradérmica liofilizada.

A tuberculose (TB) foi declarada uma emergência global pela OMS, em 1993, pois o Mycobacterium tuberculosis foi o responsável por mais mortes de adultos do que qualquer outro patógeno naqueles últimos anos. Na época a vacinação com BCG ainda continuava sendo o padrão para a prevenção da TB na maioria dos países, devido a sua eficácia na prevenção de formas de TB com risco de vida em bebês e crianças pequenas. Além de ser barata e necessitar de apenas uma dose em recém-nascidos ou adolescentes e não haver alternativa adequada. Com isto foi formado pela OMS, no final dos anos 1990, um comitê para atualização da Vacina BCG, para o qual fui convidado. Nas primeiras reuniões objetivos foram traçados para entender melhor os BCGs utilizados no mundo e melhorar a Produção e o Controle de Qualidade dos mesmos.

Em 1998, foi feita a caracterização genética do BCG Moreau, através da comparação das diversas cepas existentes no mundo. O produto da FAP foi classificado como bastante conservado e altamente imunogênico e portanto deveria ser melhor estudado.

Em 2001 a FAP aprovou na FINEP o projeto “BCG Moreau – Aperfeiçoamento de seu Processo de Produção e Novas Aplicações como Recombinante e na Forma de Concentrado”. Dentre os objetivos deste projeto estavam melhorar o processo de fabricação do BCG e levar ao mercado um BCG específico para o tratamento do Cancer superficial de Bexiga. Este estudo foi concluído com sucesso e em 2005 foi lançado no mercado o ImunoBCG para o Cancer Superficial de Bexiga.

Em 2004 os BCGs a serem estudados na OMS foram selecionados e a terminologia a ser usada para melhorar o conhecimento da caracterização molecular das vacinas BCG foi resumido no plano de trabalho e acordado pelos colaboradores e fabricantes participantes. A terminologia acordada definiu o nosso BCG, conforme nosso pleito, como “BCG Moreau Rio de Janeiro”.

Em 2011 finalizamos o estudo da sequencia genomica do BCG Moreau Rio de Janeiro, iniciado alguns anos antes e totalmente financiado pela FAP e por nossa parceira Fiocruz. Neste estudo algumas sequencias foram patenteadas para garantir a propriedade do Lote Semente pela Fundação Ataulpho de Paiva. No mesmo ano descrevemos o perfil proteomico do BCG Moreau Rio de Janeiro em conjunto com a Fiocruz.

Em 2012 o BCG Moreau Rio de Janeiro foi aprovado como vacina referência da OMS. Para tal mister a FAP preparou um lote para a OMS, com supervisão da mesma. Amostras deste lote foram escolhidas aleatoriamente, pela mesma organização, e enviadas para ser estudadas por 16 laboratórios de controle de qualidade certificados pela OMS, em 13 países diferentes, representando todos os continentes. Os resultados do estudo mostraram a qualidade de nossa vacina. Consequentemente a mesma foi considerada vacina reagente de referência da OMS.

A fabrica de Xerem, em 2016, começou a funcionar fazendo o processo de finalização da vacina BCG e do ImunoBCG, mantendo a fase inicial de produção na Planta de  São Cristovão.

Em 2017 a qualidade da nossa estirpe BCG Moreau RJ, já atestada por diversos estudos que realizamos no passado recente (genoma, proteoma, estudos clínicos), nos possibilitou exportar para a fábrica espanhola Biofabri  do grupo Zendal a tecnologia de um produto de sucesso criado em nossa Instituição, o ImunoBCG; um fato pioneiro em nosso país!

Após a transferência de tecnologia do ImunoBCG, foi iniciado em 2019 um estudo clinico para avaliar o produto na população espanhola, conforme solicitado pela Agência Reguladora Espanhola (AEMPS). Brevemente eles deverão iniciar a produção comercial do ImunoBCG para distribuição na Europa e América do Norte.

A FAP também desenvolve ação em campo, através do Instituto Vila Rosário (IVR), o projeto é desenvolvido no município de Duque de Caxias, nos bairros Parque Fluminense, Parque Comercial, Pantanal e Vila Rosário e tem o objetivo de eliminar a tuberculose na região, através do diagnóstico, controle e tratamento. O programa consiste na busca ativa de casos e redução do abandono do tratamento. Agentes de saúde, funcionárias da FAP, atuam na área, visitando domicílios, traçando o perfil social e de saúde dos habitantes, dando orientação, aconselhamento e acompanhando o tratamento e a evolução das ocorrências de tuberculose e outras doenças – como Aids e hanseníase. Nas visitas domiciliares, as agentes enfatizam as medidas para estimular a adesão do doente e do núcleo familiar ao tratamento da tuberculose, além de supervisionar a tomada de medicamentos e orientar no encaminhamento dos casos para a unidade de saúde da Secretaria de Saúde do Município – entre outros aspectos que envolvem a saúde da família. Através de levantamento da infraestrutura e visita casa a casa, o projeto contabilizou uma população de 55.631 habitantes, com uma parcela significativa em condições de miséria, habitação desumana e problemas sociais decorrentes da prevalência dos infectados por HIV, ocorrência de alcoolismo e dos casos de envolvimento com o tráfico de drogas e o crime organizado.

Tempos difíceis

Recentemente a FAP passou por um processo de crise financeira grave, secundária a suspensão de sua fabricação e agravada pela pandemia de COVID-19. Isto levou a uma situação de pré-insolvência, a qual está sendo solucionada através do network da Fiocruz, por meio do IBMP (Instituo de Biologia do Paraná) com apoio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos). Houve a intervenção na FAP e o inicio de planos de recuperação no intuito de resumir a capacidade e as condições de operação para a produção nacional da vacina BCG e do ImunoBCG. Um novo modelo foi criado, a partir do qual o IBMP se tornou mantenedor da Fundação e assumiu o controle institucional, sendo responsável por validar a composição da diretoria e dos conselhos deliberativo e fiscal.  A nova diretoria, junto com os novos Conselhos, foi aprovada em Assembleia da FAP no dia 30 de maio de 2023, assumiu em 1 de junho e vem atuando na recuperação da FAP, neste momento chamada de Nova FAP. Neste ano de 2024 já pretendemos disponibilizar os nossos produtos, BCG vacina e ImunoBCG que serão fabricados por CMO com nossos parceiros na Espanha (Biofabri/CZVaccines). Nossas atividades sociais estão pleno funcionamento (IVR) ou em recuperação (Preventório em Paquetá). Portanto, uma nova fase de nossa história está sendo escrita neste momento.